domingo, 11 de maio de 2008

Pulp Fiction.


  • Se um filme pra ser bom tem que ter sangue, situações macabramente inusitadas, cotidiano sombrio e uma "realidade" irreal, Pulp Fiction - Tempo de Violência veio para ser excelente. Afinal, em seu roteiro original e vencedor do Oscar, Globo e Palma de Ouro (1995) é exatamente isso que há. Uma ficção pertubadora e que faz o espectador pensar: "O que é isso, companheiro?".
  • O filme de Quentin Tarantino - definível como um diretor além das expectativas - traz uma "realidade" submundana ( insisto nessas aspas, logo explicarei o porquê) repleta de violência e um sadismo que o faz ser até mesmo divertido. Mas essa diversão também poderia estar entre aspas, porque não sei quão engraçado pode soar, por exemplo, um assassino que dá um tiro por engano, no cara dentro do carro e esparrama seus miolos por todos os cantos. Se essa não for uma das graças do filme, não consigo apontar qual é.
  • Um elenco cheio de figuras carismáticas e conhecidas do cinema, como Samuel L. Jackson (Jules Winnfild, o assassino que todos nós queríamos ser), John Travolta (Vicent Vega, o assassino 'desastrado' que eu com certeza iria ser), Uma Thurman (Mia Wallace, ótima no papel da mulher do chefão), Ving Rhames (Marsellus Wallace, O chefão) e Bruce Wills (Butch Coolidge, o lutador boa pinta e destrutivo que precisa salvar sua pele); e o elenco mantém esse filme, meio "sem pé nem cabeça", firme e forte, tal foi seu sucesso entre os cinéfilos alternativos.
  • Os grandes fãs de Pulp Fiction, cheios de respostas explicativas para cada detalhe do filme que me perdoem, mas começarei a explicar minhas aspas. A primeira utilizada - e duas vezes - "realidade" se deve ao fato de que o que o filme mostra está longe de ser a realidade. Muitos vão insistir que aquilo tudo existe e acontece num submundo distante, longe de nossas vidas pacatas, etc, etc, mas acho as situações apresentadas por Tarantino, improváveis demais - e isso não é uma ofensa ao filme, muito pelo contrário; ficcção, Pulp Fiction...esse é um daqueles filmes que cumprem o que propõe. Não vou citar exemplos mais esclarecedores em relação a minha opinião, pois muitos leitores do blog não devem ter assistido Pulp Fiction ainda (sim, ele fica escondido lá na locadora e não passa na Sessão da Tarde). Porém, para aqueles que assistiram- não deve ser difícil notar como a maioria das situações são altamente improváveis - e não consigo não citar o fato de um chefão da máfia deixar sua bela esposa aos cuidados de um relés capanga em pleno sábado a noite! Improvável ao extremo.
  • O "sem pé nem cabeça" fica por conta, além dessa ficção escancarada e desconexa, da falta de cronologia no filme. São três histórias que interagem entre si, porém sem dar valor ao tempo, sem uma ordem exata dos fatos e isso faz uma criança se perder (eu tinha 9 anos quando tentei assistir pela primeira vez: não entendi nada!) e anos mais tarde quando voltei a assistir entendi que não é filme que se tem que entender, apenas observar, participar enquanto acontece, ficar com cara de origami em certas cenas, sádico em outras e por aí vai. É um filme pra ser sentido enquanto se vê e depois comentar da brutalidade de algumas cenas. De repetir a citação bíblica enquanto brinca de ladrão com o primo caçula; dizer Royal with Cheese e esperar alguém corresponder; de comentar como foi engraçado o cara morrer em seu 'troninho'. Mas morrer é engraçado? Esse é Pulp Fiction pra mim, deixem suas opiniões!
  • Vamos à trilha?

    1 - Misirlou, Dick Dale & His Del-Tones.
    2 - Coffee Shop Music

    3 - Jungle Boogie, Kool & The Gang.
    4 - Strawberry Letter #23, Brothers Johnson.
    5 - Bustin' Surfboards, The Tornadoes.
    6 - Let's Stay Together
    , Al Green
    7 - Son Of A Preacher Man, Dusty Springfield.
    8 - Bullwinkle Part II, The Centurians.
    9 - Waitin In School, Gary Shorelle.
    10 - Lonesome Town, Ricky Nelson.
    11 - Ace Of Spades, Link Wray.
    12 - Rumble, Link Wray e His Raymen.
    13 - Since I First Met You, The Robins.
    14 - Teenagers In Love
    , Woody Thorne.
    15 - You Never Can Tell,
    Chuck Berry. (O pai do rock e mais um pouco) *
    16 - Girl, You'll Be A Woman Soon, Urge Overkill. (Melhor música do filme!)
    17 - If Love Is A Red Dress (Hang Me In Rags), Maria McKee.
    18 - Flowers On The Wall, The Statler Brothers.
    19 - Out Of Limits, The Marketts. (meio "surf music" e maravilhosa, do álbum deles com mesmo nome)
    20 - Surf Rider, The Lively Ones.
    21 - Comanche, The Revels.

  • A trilha é tão excelente como a composição do filme e merece destaque com nomes pouco conhecidos do rock, porém com canções extraordinárias.
  • Pela falta de tempo, não vou me aprofundar nas músicas desse post, vou deixar para que vocês mesmos façam isso. Mas aposto que nomes como Chuck Berry, The Marketts, The Centurians e The Lively Ones, se não faziam parte de suas trilhas, podem começar a fazer, pois são bandas de alta qualidade!
  • Estou demasiadamente entristecida por não explicitar ainda mais minha opinião, através de exemplos de cenas do filme, mas não quero e não vou mais estragar a leitura de meus raros e adoráveis leitores. Comentemos depois, então, em uma mesa de bar sobre esse filme que mesmo "nem aí" acaba tendo muito sobre o que falar.


quinta-feira, 8 de maio de 2008

La Vita è Bella.



  • A coerência que tento manter ao falar sobre cinema me fez começar esse post com algumas observações.
  • Provavelmente, a maioria de vocês deve saber que A vida é bela concorreu ao Oscar de 1999 junto com Central do Brasil, um dos melhores filmes brasileiros já produzidos, ao meu ver e independente da "face" brasileira que representa. Para quem não sabe, o filme dirigido por Walter Salles e protagonizado por Fernanda Montenegro (primeira atriz latino-americana a realizar o feito de ser indicada ao prêmio de melhor atriz principal, oferecido pela Academia) não foi o vencedor de melhor filme estrangeiro e sim, o A vida é bela em questão.
  • Discussões a parte, resolvi tratar do filme italiano, não por ter levado a estatueta e sim por acreditar realmente em sua beleza e conteúdo. Consideraçãoes expostas, vamos lá.

  • Ator principal, diretor e roteirista (em conjunto com Vicenzo Cerami) Roberto Bellini - um inveterado comediante italiano, conhecido por suas criações "pastelonas", em um momento de extrema inspiração criou A vida é bela. Um filme belíssimo, com um roteiro brilhante que mescla muita criatividade e um parecer diferente sobre a Segunda Guerra Mundial (e é exatamente nessa questão que o filme é contestado, quando o fazem).
  • A história do pai, Guido, que ao ser levado junto com o filho Giosué- destaque mais que fundamental para o trabalho do pequenino Giorgio Cantarini, gracioso em sua meninice inocente e esperta - tenta esconder do garoto a grandeza do horror ao qual estão sendo submetidos. Uma mentira muito bem montada, não para enganar a criança, mas para salvar um pouco do gosto do filho pela vida, que segundo ele é bela. Separados da mãe Dora, interpretada pela bonita e competente Nicoletta Braschi - que na primeira parte do filme é o desejo maior de Guido, que faz o possível e o impossível para ficar junto com ela - os dois seguem para o campo de concentração e Bellini é submetido a trabalho forçado. O menino questiona o porquê de estarem ali e o pai usa das táticas mais desenvoltas para não deixar que descubra a realidade. Ele finge que tudo não passa de uma gincana, em que seria legal os dois vencerem. Nessa parte do filme, dentro do campo é que a história se faz mais emocionante e polêmica.
  • O período da Segunda Guerra Mundial e tudo o que a acompanhou é alvo de inúmeros estudos, relatos de acontecimentos e filmes. Posso citar, o excelente A lista de Schindler; O pianista, Além da linha vermelha, entre muitos outros que contam, cada qual ao seu modo, partes da história desse momento marcado principalmente pelo Nazismo e seus conceitos arianos de raça - os judeus nesse caso, eram os principais 'inimigos' da raça pura de Hitler. Judeus que eram enviados aos tenebrosos campos de concentração e o que se via por lá - pelo que nos foi mostrado ao longo do tempo - não tinha nada da 'comédia' colocada por Bellini. Essa é uma das críticas ao filme que exalta a beleza da vida mesmo no pior lugar para se estar naquele tempo. Afinal de contas, não devia ser tão simples assim um pai conseguir em meio a tanto sofrimento ter coragem, disposição e alegria para demonstrar ao seu filho que estava tudo bem. Aí, é claro, que está centrada o maior apelo do filme. O amor de um pai por um filho o faz encarar a mais tormentuosa experiência de sua vida com irreverência e sagacidade.
  • Bellini, com certeza, conseguiu fugir por um momento do pastelão, que era seu forte até então e construiu uma obra prima do cinema. Ele conseguiu fazer a figura de Guido, um homem comum e aparentemente fraco, uma figura corajosa, encantadora em seu amor pela famíia e pela vida. Um lutador sem armas, que lutava apenas contra a descrença na possibilidade de ainda serem felizes. Dificilmente, acredito eu, existiria uma figura como ele num campo de concentração como aquele - muitos críticos dizem que essa animação toda que permanece com ele ao longo do filme é uma ofensa aos judeus que passaram realmente por aquilo - mas não duvido. O ser humano é movido por sentimentos nobres o suficiente para que uma história como essa possa ser verdadeira. O que não seria de todo o mal, pois a lição aprendida nesse filme é a de que a vida merece uma luta a mais por ela; em momentos em que a fraqueza deveria ser o sentimento de maior peso, a vontade de continuar sorrindo e de manter uma vida é o que deve prevalecer.
  • Emocionante, pouco engraçado se comparado a sua dramaticidade, A vida é bela atinge um lugar de destaque na minha lista de bons filmes quando me perguntam. Simples: após assisti-lo tomei um sopro de boas vibrações que não tinha até então tomado. Mais do que isso, fiquei feliz em ver um filme não-americano tão bem quisto por todos; repleto de méritos por sua história criada dentro de uma história real, essa nada engraçada.
  • Um filme, pra mim, quando se propõe a transmitir algo ao espectador e atinge esse objetivo, já é um bom filme, mas quando o faz com uma história bem contada, excelente fotografia e edição de imagens, interpretações marcantes e marcadas (era pra ser exatamente como foi), ai esse filme, passa a adquirir outros valores pra mim, como esse revigorante A vida é bela adquiriu; um valor de obra prima cinematográfica, digam o que disserem.